Garde le Silence                                                              Le Silence te gardera

 

 

                                                                                                                                     

NICHOLAS CULPEPER

( 1616-1654)

 

 

 

 Culpeper nasceu a 18 de Outubro de 1616 mas, 13 dias antes do seu nascimento, já se manifestava a tragédia que haveria de caracterizar toda a sua vida, com a morte do seu pai que meses antes tinha sido elevado ao posto de Lord of Ockley Manor, no Surrey;  com a sua morte, a Manor passou para outras mãos.

 

A sua infância foi fortemente marcada pelo avô materno, o Reverendo William Attersole que, além de lhe ensinar o latim e o grego, lhe deu uma forte influência puritana e um saudável desrespeito pela Coroa.  Apesar de aos 10 anos de idade o avô lhe autorizar apenas a leitura da Bíblia na sua biblioteca, nela encontrou e leu textos astrológicos e médicos, sendo especialmente impressionado pela Defesa da Astrologia Judicial, de Sir Christopher Heydon e pelo New Herbal de William Turner.  Nela encontrou também uma cópia da Anatomia do Corpo de um Homem, de Thomas Vicary, barbeiro cirurgião de Henrique VIII, que veio a influenciar notavelmente o Directório para Parteiras que o próprio Culpeper escreveu em 1651.

 

Aos 16 anos entrou na Universidade de Cambridge onde, em vez do estudo da teologia, como pretendia o avô, se devotou ao estudo dos clássicos e da materia medica de Galeno e Hipócrates, passando o resto do seu tempo em tabernas e praticando o ténis e a natação no Rio Cam, chegando mesmo a adoptar a nova moda de fumar tabaco e acabando por nunca terminar o curso.

 

Na altura em que entrou para Cambridge, Culpeper pretendia casar com a herdeira Judith Rivers, com quem namorava desde a infância sem o conhecimento de qualquer das famílias.  Sabendo que a sua família jamais autorizaria a união, ela decidiu fugir com ele para os Países Baixos até o escândalo se ter diluído.  Quando se dirigia ao seu encontro, a carruagem foi atingida por um raio, matando-a.  Culpeper entrou numa profunda melancolia e permaneceu em reclusão durante muito tempo.  A mãe morreu pouco depois, em estado de grande depressão.  A ira do avô fez com que fosse deserdado pela família da mãe.  Não podendo voltar a Cambridge para terminar os seus estudos de teologia ou de medicina, acabou por seguir o conselho do avô, tornando-se num farmacêutico de tão grande mérito que, tendo-se iniciado como aprendiz de Francis Drake, o substituiu quando este morreu.

 

Em Novembro de 1635, Culpeper visitou William Lilly que se ofereceu para lhe ensinar a Arte.  Ao despedirem-se, Lilly deu-lhe umas efemérides para os anos de 1636-40 e alguns aforismos para médicos, e a sua influência é evidente na obra que agora se apresenta.  A sua opinião sobre o famoso astrólogo torna-se clara nas suas palavras:  “Deveis todos abençoar Deus por ter criado esse famoso homem, o Sr. WILLIAM LILLY que, com a ajuda de Deus, tornou a Arte da Astrologia tão clara para todos vós que não só vos podereis dar conta da vossa anterior ignorância como também vos tornareis capazes de vos fazerdes a vós mesmos algum bem.”

 

Em 1640, aos 24 anos, casou-se com Alice Field, filha de um dos seus pacientes, cujo dote o ajudou a estabelecer-se como astrólogo e ervanário, alcançando uma considerável reputação entre os seus pacientes que ascendiam a 40 por dia, pois a todos atendia e a poucos cobrava.  “Muitas vezes encontro os meus pacientes perturbados por preocupações da Consciência ou Pesar, e tenho que fazer de teólogo antes de poder ser médico.  De facto, a nossa maior habilidade reside na infusão de Esperanças, para induzir a confiança e a paz de espírito.

 

Durante a Guerra Civil (1642-9), alistou-se a favor da causa Parlamentarista como cirurgião, tomando parte na batalha de Edgehill em 1642 e sendo ferido no ombro em 1643 no cerco de Reading, ferimento esse que terá  estado na origem da tuberculose que se crê ter contraído nessa altura. 

 

A sua obra escrita beneficiou grandemente da abolição da censura em 1641, contribuindo para a realização do seu desejo de que a medicina ervanária se tornasse acessível aos pobres que não tinham dinheiro para pagar aos médicos.  Em 1649 publicou a tradução para o inglês da Pharmacopoeia Londonesis do Real Colégio dos Médicos, chamando-lhe Um Directório Médico, ou Uma Tradução do Dispensário de Londres, ao qual acrescentou o seu comentário pessoal sobre os usos e as virtudes de cada droga, o que provocou uma enorme controvérsia e a forte reprovação do Colégio, cuja autoridade já tinha sido abalada pela execução de Carlos I, acontecimento que se deu pouco antes da publicação desta obra.

 

Em 1651 publicou a Semeiotica Uranica, ou o Julgamento Astrológico das Doenças, baseado na tradução de uma obra de Noel Duret, o cosmógrafo real francês, prefaciado por uma tradução do Tratado dos Dias Críticos do astrónomo e médico árabe do sec. XVI, Abraham Avenezra, e contendo também uma secção do Primeiro Decúbito Total dos Doentes de Hermes Trismegistus.  Nesse mesmo ano terminou uma obra sobre obstetrícia, Um Directório para Parteiras;  ou um Guia para mulheres quanto à concepção, nascimento e aleitamento dos seus filhos, etc.  O tópico da obstetrícia é certamente invulgar num homem mais conhecido como ervanário e astrólogo, mas a tragédia na sua família terá certamente focado nele a sua atenção.  Dos seus sete filhos, nascidos ao fim de 14 anos de casamento com Alice, só a sua filha Mary lhe sobreviveu.

 

Em 1652 traduziu do latim a Arte da  Medicina de Galeno e no mesmo ano escreveu Catastrophe Magnatum ou a Queda da Monarquia, obra de astrologia mundana, baseada no eclipse solar que ocorreu por volta das 9 da manhã na “2ª Feira Negra”, 29 de Março de 1652, na qual comentava que “A Quinta Monarquia está a chegar mas ele não é Escocês nem Inglês” o que mostrava que não estava a favor de Oliver Cromwell, que se tornou Lord Protector nesse ano.  A sua predição privilegiava um colapso da ordem de governo estabelecida e a aurora de uma nova era sob a orientação divina de Cristo e dos seus Santos.

 

Em 1653 terminou o seu ervanário O Médico Inglês, ou um Discurso Astrológico Médico sobre as Ervas Comuns desta Nação, obra cujo impacto perdurou pelos séculos, como ele predizia numa carta à sua mulher:  “...e a minha fama perdurará e aumentará com ela, apesar do período da minha Vida e Estudos estar a terminar e dever despedir-me de todas as coisas sob o Sol.”   John Gadbury descreveu-a como “...uma obra de tal raridade como jamais algum ervanário se aventurou a fazer.”

 

Pouco depois de conclusão desta obra, Culpeper morre com 38 anos, a 10 de Janeiro de 1654, vítima do excesso de trabalho e destroçado pela tuberculose que o tinha reduzido a um mero esqueleto.  As palavras da viúva atestam a sua enorme herança literária:  “O meu marido deixou 79 livros por ele escritos ou traduzidos nas minhas mãos.”  O mais notável de todos poderá ser O Tratado do Aurum Potabile, publicado postumamente em 1656.  Obra alquímica de enorme importância, explica a filosofia por detrás de toda a sua vida e obra escrita, “sendo uma descrição do Mundo Triplo;  o elementar, o celeste e o intelectual, contendo o conhecimento necessário para o estudo da Filosofia Hermética.”  Explica como o estudo dos elementos e dos planetas na verdadeira filosofia pode levar a uma descoberta do princípio Crístico no seu interior ou, como ele diz simbolicamente, no alcançar o “Ouro bebível.”  Dadas as incertezas religiosas que se viviam na sua época, não será de estranhar que tenha escrito sobre esta sua experiência mais íntima e profunda usando imagens alquímicas e que tenha deixado o tratado para ser publicado após a sua morte. 

 

Médico de eleição, trabalhou sempre entre os pobres, defendendo que o tratamento tinha que ser barato e imediatamente disponível, o que contribuiu para a sua crença nas “ervas inglesas para corpos ingleses.”  Entre os estudantes que a sua reputação atraiu, sobressai William Ryves, que não só o ajudou na sua extensa obra literária como também escreveu a sua biografia:  A Vida do admirado Médico e Astrólogo dos nossos tempos, Sr. NICHOLAS CULPEPER.

  

JULGAMENTO ASTROLÓGICO DAS DOENÇAS,  NICHOLAS CULPEPER

 

ISBN 972-8861-16-8

DEPÓSITO LEGAL 224714/05

 

 

 

 

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Last modified: 04/04/05