Garde le Silence                                                              Le Silence te gardera

 

 

                                                                                                                                     

 

 

JOHN GADBURY

 

 

 

COLLECTIO GENITURARUM

 

 

Sir John Curson, um próspero e católico cavalheiro de Oxfordshire, avô materno de John Gadbury, deserdou a filha quando esta resolveu casar-se com William Gadbury, um modesto lavrador.  John Gadbury foi aprendiz de alfaiate até aos dezasseis anos, altura em que uma reconciliação com o seu abastado avô lhe possibilitou uma educação em Oxford.

 

Em 1649, imediatamente a seguir à execução de Charles I, tornou-se em Londres num seguidor do movimento político dos Levellers (Igualitários), que exigiam a liberdade de consciência, a redistribuição da riqueza e uma constituição democrática.  Na vertente religiosa, encontrou inspiração na Família do Amor, cujo líder carismático Abiezer Coppe advogava o uso do álcool, do tabaco e do amor livre para alcançar a libertação espiritual.

 

Foi nesta conturbada época que conheceu Lilly, 25 anos mais velho e reconhecido como o astrólogo mais importante de Inglaterra, que o encorajou a regressar a Oxfordshire em 1652 e a estudar a astrologia com o matemático e astrólogo Nicholas Fiske.  Passados três anos, já se tinha estabelecido como astrólogo em Londres.  Apresentou as suas primeiras efemérides em 1655 e no ano seguinte publicou uma muito aplaudida Emenda às Tábuas Astronómicas de Hartgil, com prefácio de Lilly e dedicada a Elias Ashmole.  A Doutrina das Natividades e a Doutrina das Perguntas Horárias surgiu em 1658, sendo calorosamente elogiada por Lilly.

 

Apesar da primeira obra publicada por Gadbury ser “... Uma Defesa do Sr. Culpeper, do Sr. Lilly e do resto dos estudiosos daquela nobre Arte” (1651), uma refutação do panfleto anti-astrológico da autoria de William Brommerton, poucos anos depois atacava Lilly por escrito sempre que a oportunidade se lhe apresentava, acusando-o de plágio, incompetência e fraude.  As razões para tal mudança foram em parte políticas.  Durante o Protectorado de Cromwell, Gadbury abandonou o seu extremismo político e religioso para se transformar num conservador e dedicado monárquico.  Na sua famosa Colecção de Natividades, o seu novo zelo pela causa monárquica encontrou plena expressão nos seus comentários sobre a natividade de Cromwell, atacando frequentemente Lilly e apodando-o de “criatura de Oliver”.

 

Lilly ficou chocado com a veemência da reacção de Gadbury contra ele, justificando-se tê-lo descrito na sua autobiografia como “um monstro de ingratidão”.  Depois da Restauração, Lilly passou a evitar prudentemente qualquer envolvimento com a política, indo viver calmamente para a província e continuando a publicar os seus almanaques e panfletos.  Em 1674, aos 72 anos de idade, Lilly lançou um ataque satírico contra Gadbury, comentando como que por casualidade num dos seus panfletos que qualquer pessoa que nascesse com o ascendente em Escorpião tinha necessariamente que ser um criminoso, um traidor, um debochado, &c.  Não foram mencionados nomes, mas Gadbury mordeu a isca e publicou em resposta o Obsequium Rationabile, ou Serviços Razoáveis Realizados pelo Signo Celeste de Escorpião contra as Malignas e Falsas Tentativas daquele Grande (mas Afortunado) IMPOSTOR, o Sr. William Lilly.

 

Gadbury dirigia-se aos seus companheiros Escorpiónicos em termos estrondosos:

 

“Senhores, quaisquer que sejam os vossos nomes ou títulos, sois apodados pelo Sr. Lilly como as pessoas mais vis e perigosas no mundo inteiro.  Sois a geração odiosa que ele aconselha toda a gente a temer, e isto meramente por causa do vosso inocente horóscopo.  Estais todos igualmente incluídos (juntamente comigo) sob o egrégio escândalo do Sr. Lilly contra o Escorpião, no entanto, eu tenho grande razão para acreditar que o Sr. Lilly dirigiu o seu maligno e invejoso dardo a mim, em particular.”

 

Depois apresentava “20 notáveis Genituras” na defesa “daquele glorioso mas estigmatizado horóscopo”.  Deliciado com os rompantes de Gadbury, Lilly emitiu um panfleto em que declarava:

 

“Quando vi pela primeira vez o panfleto de J. Gadbury e a sua torrente de retórica dirigida a todas as pessoas da Tribo de Escorpião, pensei que estava eminente alguma horrível conspiração.  Aplaudi a sua bondade avisando-as sobre perigos tão desconhecidos e terríveis, mas após um exame mais calmo e imparcial, verifiquei que o nosso autor teve apenas um ataque de quixotesco orgulho e malícia, de modo que me atrevo a garantir a todos os Escorpiónicos que se defenderem a paz d’El Rei e mantiverem uma boa dose de sensatez, poderão continuar a viver em segurança, acabando por morrer nas suas camas sem haver necessidade de se auto degolarem.”

 

Mas a inimizade que Gadbury sentia por Lilly não resultava apenas do facto de apoiarem partidos diferentes.  Debaixo da sua postura pomposa que tanta troça provocava em Lilly, Gadbury era um astrólogo profundamente empenhado e consciente de que estava a viver uma época em que a arte propriamente dita tinha caído em descrédito e, para ele, Lilly estava na origem do problema.

 

Além de ter apoiado Oliver Cromwell e o seu Protectorado, Lilly tinha democratizado a astrologia ao publicar a Astrologia Cristã em inglês e não em latim, fazendo com que deixasse de ser apenas acessível ao teólogos e doutores com educação universitária.  A seguir a Lilly, Nicholas Culpeper agastou o elitista Colégio de Médicos ao escrever sobre astrologia médica e ervanária em inglês corrente, para benefício do cidadão comum.  Gerard Winstanley, uma luminária do Verdadeiro Movimento Igualitário, tão aplaudido por Gadbury na sua juventude, e considerado como um dos pensadores mais progressistas da época, advogava a abertura das universidades a todos, mulheres e homens, ricos e pobres.  No sistema de educação idealizado por Winstanley, a astrologia teria feito parte do currículo básico.

 

Não é de estranhar que quando o rei, os nobres e os bispos regressaram ao poder em 1660, a astrologia fosse associada à “tendência igualitária” que havia feito tremer o fundamento da sua autoridade e se tivessem tomado medidas para que tal nunca mais voltasse a acontecer.  Em 1661, Charles II criou por carta régia a “Royal Society para o Desenvolvimento do Conhecimento Natural”, criando assim o primeiro instituto científico de pesquisa.  O principal intuito da Royal Society era estabelecer um corpo oficial de conhecimento baseado em factos objectivos.  A sua “causa oculta” era impor uma ortodoxia intelectual e desencorajar ideias subversivas.  John Gadbury passou o resto da sua vida a tentar provar que a astrologia era uma área de estudo legítima, digna de ocupar um lugar ao lado das embriónicas disciplinas científicas que começaram a emergir debaixo da égide da Royal Society. 

 

A primeira acção de Gadbury foi distanciar-se das desacreditadas práticas dos astrólogos populistas.  Reagindo contra os seus próprios entusiasmos de juventude, tornou-se severamente crítico das seitas radicais que tinham participado da derrocada da monarquia.  Apesar de nunca se ter associado a qualquer destas seitas, Lilly misturara livremente a sua astrologia com antigas profecias para augurar a desgraça régia.

 

Gadbury percebeu que doutrinas deste tipo não seriam já toleradas na Inglaterra da pós Restauração.  Juntamente com os sortilégios e os talismãs, a contemplação da bola de cristal e a invocação dos espíritos, rejeitou a profecia astrológica e a revelação mística, defendendo que a astrologia era uma ciência racional cuja verdade podia ser demonstrada através de um estudo objectivo de causa e efeito.  Para tal havia que registar com precisão os dados do nascimento e implementar uma cooperação entre os pesquisadores astrológicos, sendo esses os primeiros passos vitais para o estabelecimento de uma ciência de natividades respeitável.  A sua Collectio Geniturarum ou Colecção de Natividades, a primeira do seu tipo a ser publicada em inglês, contém a análise detalhada de 150 horóscopos de personalidades famosas ou invulgares.

 

Vários membros fundadores da Royal Society apoiaram os esforços de Gadbury para criar uma ciência da astrologia sistematizada.  Entre eles, Elias Ashmole, que chegou a dar conselhos astrológicos a Charles II e se relacionou amistosamente com todos os astrólogos da época, independentemente das suas rivalidades ou opiniões políticas, assim como John Aubrey e John Goad, além do arcediago da Catedral de Salisbury, Joshua Childrey, que propunha uma nova abordagem da astrologia baseada nas descobertas astronómicas de Galileo e de Kepler.

 

Com a morte de todos estes defensores do estudo científico da astrologia, no final do sec. XVII, esta entrou num abrupto declínio e o facto de ser associada às superstições das “massas ignorantes” tornou-a uma proposta pouco atraente para a intelligentsia da Idade da Razão.

 

 ISBN:  972-8861-20-6

DEPÓSITO LEGAL:  232515/05

 

 

 

 

 

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Last modified: 04/04/05