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AL BIRUNI 

 

 

 

Abu Rayhan Muhammed ibn Ahmad al-Biruni nasceu um pouco antes do nascer do Sol, no dia 4 de Setembro de 973, nos subúrbios da cidade de Kath (a Khiva actual), situada no rio Oxus, naquilo que era então o Principado de Khwarizm, o Uzbekistão actual.  Daí o seu nome: al-Biruni significa literalmente “o suburbano.”  Cedo se revelou um estudante e cientista de excepção que se parece ter interessado por todos os ramos do conhecimento, sobressaindo particularmente na astronomia, matemática, física, história e medicina.  Fluente no turco, persa, sânscrito, hebreu, siríaco e árabe, aos 20 anos já tinha escrito vários textos científicos muito aplaudidos e sabe-se que conversava e se correspondia com o seu contemporâneo ibn Sina (Avicena), cuja obra se tornou vastamente conhecida na Europa.

 

Quando Al Biruni tinha vinte e poucos anos, a dinastia reinante de Khwarizm foi derrubada pelo Emir Ma’mun ibn Muhammad da vizinha Gurganj.  Al Biruni procurou refúgio na corte do Sultão Nuh ibn Mansur, o senhor a que todos os príncipes da região prestavam vassalagem.  Aí conheceu o Emir Qabas al-Ma’ali que tinha sido temporariamente afastado do seu próprio principado.  Em 988 o Sultão restituiu o poder a Qabas que levou Al Biruni consigo para Gurgan, no Mar Cáspio, onde permaneceu durante vários anos.  Durante este período concluiu a sua primeira grande obra, A Cronologia das Nações Antigas.

 

Em 1009, Al Biruni regressou a Khwarizm, onde ocupou uma posição ilustre como conselheiro e oficial da corte junto dos sucessores de Ma’mun, o usurpador.  Em 1017, o segundo filho de Ma’mun foi assassinado por súbditos rebeldes e o seu cunhado, Mahmud de Ghazna, invadiu Khwarizm para se vingar.  Os membros sobreviventes da corte de Khwarizm foram levados contra vontade para a fortaleza de Mahmud em Ghazna, no Afganistão, e Al Biruni foi levado com eles, juntamente com o matemático ibn Iraq e o médico ibn Khammar.  Mahmud tinha grande interesse em atrair gente erudita para Ghazna para aumentar o prestígio da sua corte, e estava preparado para usar de quaisquer meios para os conquistar.  Avicena tinha fugido da região vários anos antes ao receber um dos “convites” ameaçadores de Mahmud.  No entanto, Al Biruni parece ter-se sentido muito feliz em se instalar em Ghazna, onde era venerado pela sua grande erudição e onde exerceu as funções de astrólogo da corte de Mahmud e dos seus sucessores.

 

Entre 1017 e 1030, viajou extensivamente na Índia, coligindo material para o seu registo monumental da história, costumes e crenças do sub-continente.  Índia foi a sua obra que mais aplauso gerou durante a sua vida.  Produziu também uma grande obra sobre astronomia, conhecida como o Cânone Masúdico, dedicada ao filho de Mahmud, Ma’sud.  Diz-se que Ma’sud o recompensou com um elefante carregado de prata, mas que Al Biruni o devolveu ao tesouro real.  Como obra técnica sobre a astronomia medieval, o Cânone é notável pela aprovação de Al Biruni sobre a teoria de que a Terra gira sobre o seu eixo, o que sugere que os astrónomos árabes eram mais críticos sobre as teorias de Aristóteles e de Ptolomeu do que se supõe frequentemente.  Ma’sud conferiu-lhe uma pensão que lhe permitiu devotar o resto da sua vida aos estudos científicos e à sua obra literária.  Além dos Elementos da Astrologia, escreveu livros importantes sobre a medicina, geografia e física, e traduziu para o sânscrito o Almagest de Ptolomeu.  Morreu aos 75 anos em Ghazna, no dia 13 de Dezembro de 1048.

 

O Livro de Instrução dos Elementos da Arte da Astrologia foi escrito por Al Biruni para uma dama, Rayhanah, que fazia parte da corte Khwarizm levada por Mahmud para Ghaznah em 1017.  Pouco se sabe dela para além daquilo que nos é dito por R. Ramsey Wright:  “distinguia-se entre as mulheres orientais pela sua sede de conhecimento científico e pela rara distinção de lhe ter sido dedicado um livro.”

 

As instruções de Al Biruni a Rayhanah são verdadeiramente abrangentes.  Segundo Wright, os Elementos “podem ser considerados como uma cartilha da ciência do sec. XI.”  Começam com secções sobre geometria e aritmética que levam a uma completa exposição da astronomia Ptolomaica que inclui uma detalhada descrição do uso do astrolábio.  A isto seguem-se secções sobre geografia e cronologia, pois Al Biruni insiste em considerar que ninguém se pode intitular astrólogo sem um bom conhecimento destas ciências.  Nesta edição omite-se essa parte, apresentando-se apenas a secção astrológica que começa na página 210.

 

São cinco as divisões da astrologia judicial por ele reconhecidas.  A primeira, a astrologia “natural” diz respeito à meteorologia, aos tremores de terra, às inundações e a todas as outras “vicissitudes e desastres da natureza.”  A segunda é a astrologia mundana, que diz respeito à ascensão e queda de reinos, batalhas, revoluções, etc.  A astrologia natal individual constitui a terceira divisão na qual Al Biruni, como Ptolomeu, revela ter perfeita noção de que as considerações sobre a hereditariedade e o ambiente modificam quaisquer indicações astrológicas.  A quarta divisão “tem a ver com todas as actividades e ocupações... e é fundamentada nos inícios ou origens.”  Esta incluiria a astrologia horária e a eleccional, seguindo-se a quinta divisão em que a astrologia alcança um ponto que ameaça transgredir os seus próprios limites e em que o astrólogo está num lado e o feiticeiro no outro, e entra-se num campo de presságios e adivinhações que não tem nada a ver com a astrologia, apesar de se manter a sua referência às estrelas.

 

A imagem da astrologia árabe que emerge é muito semelhante ao modelo grego tal como é exemplificado no Tetrabiblos, apesar de haver atribuições e correspondências diferentes que reflectem um ambiente cultural distinto.  Al Biruni faz frequentes comparações com as práticas indianas, registando a sua desaprovação sempre que ofendem aquilo que considera correcto.  A sua extensa lista das chamadas “partes arábicas” foi tirada de Abu-Ma’shar, apesar do conceito ser muito mais antigo.  Esta era uma técnica popular entre os astrólogos árabes que lhes ficou intimamente associada.  Al Biruni lista mais de 150 partes ou lotes, embora ainda se lamente da “impossibilidade de enumerar os lotes que foram inventados para a solução das perguntas horárias, os quais aumentam de número todos os dias.”  O conceito das “mansões lunares” ou “estações da Lua” é puramente árabe, apesar de nisto Al Biruni se limitar apenas à sua descrição astronómica.  É a dimensão astronómica da astrologia de Al Biruni que a distingue dos textos clássicos, reflectindo as vantagens e refinamentos da ciência árabe.  O seu debate das subtilezas da interpretação resultantes das diferentes fases das órbitas planetárias ultrapassa grandemente o nosso actual entendimento do que são as “dignidades acidentais.”

 

As obras de Al-Biruni não foram traduzidas para o latim pelos tradutores do sec. XII, mas quatro delas existem actualmente em tradução inglesa: 

 

-         The Chronology of Ancient Kingdoms, traduzida e editada por C. Edward Sachau em Londres, 1879.

 

-         Alberuni’s India, traduzida por Edward C. Sachau em Londres, 1888.

 

-         Al-Biruni on Transits, traduzida por Mohammad Saffouri e Adnan Ifram com um comentário por E.S. Kennedy em Beirut, pela Universidade Americana de Beirut, 1959.

 

-         The Book of Instruction in the Elements of the Art of Astrology, que é agora apresentada na sua tradução para língua portuguesa.

 

 ISBN 972-8861-12-5 

 DEPÓSITO LEGAL Nº 220620/04

 

 

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Last modified: 03/29/05