Garde le Silence                                                              Le Silence te gardera

 

 

 

 

 

GUIDO BONATUS E HIERONYMUS CARDANUS

 

 

ANIMA ASTROLOGIAE

OU

O GUIA DO ASTRÓLOGO

 

 

As Considerações de Bonatus e os Aforismos de Cardanus foram as últimas obras que William Lilly publicou, em 1676, seleccionando-as entre todas as obras ao seu dispor, numa época em que o conhecimento da Astrologia e a crença nesta ciência eram praticamente generalizadas entre as classes eruditas. 

 

Guido Bonatus viveu no sec. XIII em Milão e a sua obra atesta a sua reconhecida habilidade e mestria na ciência que professava.  O historiador Fulgusos relata que estando Guido, Conde de Monte-Serrant, sitiado naquela cidade, recebeu palavra de Bonatus, informando-o que se fizesse uma incursão no campo inimigo, a vitória seria completa e o cerco levantado, mas que ele próprio sofreria um ferimento, perigoso mas não mortal, na coxa.  O Conde seguiu o conselho, a incursão foi levada a cabo na data indicada e, apesar da sua grande desvantagem numérica, a predição concretizou-se.  Foi ferido na coxa, mas recuperou-se rapidamente, pois tinha entrado na batalha com todos os apetrechos necessários para tal eventualidade.

 

Bonatus chegou à conclusão de que algumas pessoas o consultavam para troçarem dele, como é patente no seu Guia do Astrólogo em que avisa o leitor “Quando o querente vem apenas para o tentar, ou para lhe fazer uma partida, como muitos fazem, dizendo “Vamos a este ou àquele Astrólogo, perguntar-lhe tal coisa, para ver se ele nos consegue dizer a verdade ou não.”  Terá sido a resultante preocupação em identificar estes indivíduos que o levou a criar as regras relativas ao ascendente nos primeiros e últimos graus de um signo, assim como as considerações sobre a hora planetária.  Para Bonatti, se o mapa não fosse radical, haveria razão para suspeitar que a atitude do querente não era séria nem sincera, que se sentia inseguro quanto à pergunta ou, pior ainda, que tinha a intenção de troçar do astrólogo;  a própria pergunta seria inconsequente, tonta e, provavelmente, sem qualquer fundamento na realidade.  Citando as suas próprias palavras, “Observava a hora da pergunta e, se o Ascendente estivesse muito perto do final de um signo e no início de outro, de tal forma que parecesse estar entre ambos, eu dizia que não perguntavam a sério, ou que tinham vindo para me testar...”

 

Sobre Hieronymus Cardanus, a informação é vasta já que é fornecida pelo próprio e a sua vaidade é notória.  Filho ilegítimo, a mãe tentou evitar o seu nascimento, mas sem sucesso.  Acabou por nascer por cesariana em Milão a 1 de Outubro de 1501, apresentando a cabeça coberta de espessos caracóis negros.  Casou em 1531, ultrapassando as condições físicas que o tinham impedido de o fazer até então, e que ele atribuía às nefastas influências do planeta sob o qual tinha nascido e que sempre considerou como um dos maiores infortúnios da sua vida. 

 

Foi educado como médico e leccionou como professor na maioria das universidades italianas.  No ano de 1570 foi preso;  ao ser libertado, retirou-se para Roma, onde serviu o Papa Gregório XIII como médico e graças ao que recebeu uma pensão até morrer em 1576.

 

O próprio Cardan descreve as aventuras da sua vida com uma liberdade raramente encontrada entre os eruditos, parecendo ter como único propósito a demonstração de que a pessoa pode ser dotada de um grande génio e, ao mesmo tempo, ser completamente destituída de razão.  Submete todas as outras considerações à sinceridade com que confessa as suas boas e más qualidades, acabando por manchar a sua reputação.

 

Apesar de Cardan raramente divagar quando relata os seus princípios morais e os seus sentimentos, somos levados a duvidar daquilo que ele conta sobre si próprio, pois parece quase impossível existir um carácter tão caprichoso e inconsistente como ele se apresenta.  Gabava-se de não ter um único amigo no mundo, mas que em vez disso, era servido por um Espírito que emanava de Saturno e de Mercúrio, que era o guia constante das suas acções e o mestre de todos as missões que era chamado a realizar.  Apreciava tanto todos os jogos de azar que neles passava dias inteiros, para grande prejuízo da sua família e reputação, pois chegava a apostar a mobília e as jóias da mulher.

 

Não tinha qualquer escrúpulo em confessar que era vingativo, invejoso, traidor, praticante da magia negra, difamador, caluniador e viciado sem reservas em todos os excessos mais asquerosos e detestáveis que imaginar se possa;  não obstante esta declaração tão humilhante, nunca deve ter existido um homem mais vaidoso, ou alguém que com menos cerimónia exprimisse a elevada opinião que tinha de si:

 

“Tenho sido admirado por muitas nações;  panegíricos sem fim, em prosa e verso, foram compostos para celebrar a minha fama.  Nasci para libertar o mundo dos muitos erros que o subjugam.  Aquilo que descobri não o pode ser feito pelos meus antecessores nem pelos meus contemporâneos;  e essa é a razão porque os autores que escrevem qualquer coisa merecedora de ser lembrada não se envergonham de confessar que me estão em dívida por isso.  Compus um livro sobre a arte da dialéctica, no qual não existe uma só letra supérflua ou incorrecta.  Terminei-o em sete dias, o que parece ser um prodígio.  No entanto, haverá alguém que possa gabar-se de dominar a sua doutrina num só ano?  E aquele que a tenha compreendido nesse tempo terá que ter sido instruído por um Demónio íntimo.”

 

Cardan prima por uma mente culta em todo o tipo de conhecimento, da filosofia à medicina, da astronomia às matemáticas, etc.  Até Scaliger, que tão mal falou dele, confessava que era dotado de uma mente incomparável na sua agudeza e capacidade de compreensão.  Acusado de impiedade e ateísmo por citar alguns princípios de outras religiões no seu “De Subtilitate,” em “De Vita Propria” verifica-se que é um homem de fé e não um livre pensador.  Mas apesar de não ser um devoto, parum pius, afirma que, sendo naturalmente vingativo, deixou muitas vezes passar a oportunidade de satisfazer o seu ressentimento porque, como escreve, “Não existe nenhuma forma de culto que mais agrade à Divindade do que a de obedecer à lei, contrariando o mais forte impulso das nossas naturezas para a transgredir.”  E, falando sobre o seu amor à solidão, dá-nos mais uma prova da sua piedade:  “Quando estou só é que me sinto, mais do que em qualquer altura, na companhia daqueles que amo – a Divindade e o meu bom Anjo.”  Gabava-se orgulhosamente de ter recusado uma soma considerável de dinheiro, que lhe foi oferecida pelo Rei de Inglaterra, com a condição de que lhe devolvesse os títulos que o Papa lhe havia retirado.

 

O mesmo carácter caprichoso, revelado pela sua conduta moral, se verifica na composição das suas obras.  O leitor é bloqueado a cada passo pelas suas constantes digressões relativamente ao assunto em questão, num texto já de si obscuro.  Nos tratados em aritmética, entrega-se a divagações sobre os movimentos dos planetas, sobre a Criação e sobre a Torre de Babel e nos tratados em dialéctica, opina sobre os historiadores e os escritores de epístolas, justificando esta prática como uma forma de encher a página, pois era à página que o editor lhe pagava e ele trabalhava tanto para o seu sustento com para a obtenção da glória.

 

Cardan foi instrumental ao ressuscitar a sagrada filosofia da Cabala e os Cabalistas, e os seus Sete Segmentos são de grande valia para os Astrólogos.

 

 

ISBN 972-8861-04-4  DEPÓSITO LEGAL Nº 206918/04

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Last modified: 02/23/05