Garde le Silence                                                              Le Silence te gardera

 

 

                                                                                                                                     

ABRAHAM BEN MEIR IBN EZRA

(1089-1164)

 

 

Página da 1ª edição do Comentário ao Pentateuco, de Abraham Ibn Ezra,

Nápoles 1488

 

 

“Não quero ter mais pátria que o mundo, e não acabo de acabar comigo não ser português.”

  (Padre António Vieira)

 

Tal como o Padre António Vieira, outro erudito de origem hebraica pela bisavó materna, forçado a evitar a terra natal cinco séculos mais tarde devido à perseguição religiosa instaurada pela Inquisição, que o acusava de ter sido baptizado de pé, apesar das provas em contrário,  também Abraham Ibn Ezra levou uma vida de judeu errante cujo percurso nos conta a história das perseguições contra o seu povo e as vicissitudes por que este passou durante a Alta Idade Média. 

 

A sua obra desenvolveu-se em muitas áreas, englobando a exegese bíblica, a gramática hebraica, a poesia nacional e litúrgica, a filosofia, a matemática, a geometria, a astronomia e a astrologia.  Entre os judeus, é principalmente conhecido e admirado pelo seu comentário à Bíblia e pela sua poesia, mas no mundo cristão europeu tornou-se conhecido pelos seus escritos astrológicos e matemáticos.

 

Nasceu em Tudela, na Espanha árabe, numa época em que os judeus gozavam de grande esplendor económico, científico e cultural e foram fundamentais na transmissão da ciência e filosofia árabes para a Europa cristã.  Era a época das cruzadas e das guerras entre muçulmanos e cristãos em Espanha, no meio das quais as comunidades judaicas foram apanhadas, sofrendo perseguições tanto no Norte de África como na própria Espanha, circunstâncias que influenciaram grandemente a vida e obra de Ibn Ezra.

 

A sua vida de judeu errante foi devotada à busca de conhecimentos, à escrita dos seus livros e ao ensino dos seus estudantes, decorrendo sempre numa grande pobreza e na dependência da ajuda dos seus patronos.  Num dos seus poemas pessoais, diz ironicamente que na sua natividade as estrelas alteram o seu curso natural para lhe trazerem a desventura, de tal forma que se decidisse vender velas, o Sol nunca se poria, e se decidisse vender mortalhas, ninguém haveria de morrer.

 

Casou cedo com a filha do célebre poeta e filósofo judeu, Yehuda HaLevi, de quem teve um filho, Itz’hak, que se converteu ao islão em Baghdad.  As viagens de Ibn Ezra levaram-no várias vezes para o Sul, às regiões muçulmanas e às comunidades judaicas do Norte de África, tendo visitado o Egipto e a Palestina.  Em 1140 deixa definitivamente a Espanha e dá início às suas viagens pelas comunidades judaicas da Itália, França e Inglaterra, a quem transmite as ciências islâmicas às quais estas comunidades não tinham acesso.  Em 1146, em Lucca, perto de Roma, na segurança que lhe era proporcionada sob os decretos dos Papas e onde sobrevivia graças à celebridade já alcançada e à prática da astrologia, escreveu a maior parte dos seus tratados astrológicos, que algumas fontes dizem ter sido escritos em Beziers, onde chegou em 1147.

 

Em 1152 foi para a Provença onde, recuperando de uma doença séria que o atingiu aos 64 anos, jurou escrever o seu comentário para a Bíblia numa versão alongada.  Aos 70 anos decide ir para Inglaterra onde é muito bem recebido e onde compõe importantes obras.  A sua morte dá-se aos 75 anos, no ano de 1164, sendo as versões contraditórias quanto ao local:  Roma, Calahora ou Inglaterra.  Parece ter predito a sua própria morte, a avaliar pela frase escrita por um dos copistas do seu Comentário sobre a Torah no final do livro:

 

“Na segunda feira, no Primeiro de Addar I, no ano 4924, Ibn Ezra morreu, com a idade de setenta e cinco anos, e escreveu para si mesmo no ano da sua morte pela sua própria mão  “Avraham tinha setenta e cinco anos quando saiu debaixo da ira de Deus.”  A data mencionada corresponde a 27 Janeiro 1164 do calendário Juliano.

 

A sua obra astrológica consta de nove tratados astrológicos de sua autoria e a tradução de dois outros do árabe para o hebreu, e abrange todos os ramos da astrologia.  Demonstra conhecer as várias teorias e fontes dos seus antecessores mas parece seguir o Tetrabiblos de Ptolomeu.  Alguns dos seus livros foram escritos duas vezes, numa versão curta e noutra alongada.

 

1 – RE’SHIT HO’CKMAH  (O Princípio da Sabedoria) – Tratado de astrologia em dez capítulos, descrevendo os signos tropicais e siderais, as estrelas fixas, os decanatos e as imagens neles contidas, a divisão do círculo e as casas, os atributos dos planetas e luminares, os aspectos, a força relativa dos planetas, os seus aspectos e uma extensa lista de Partes Árabes.  É, sem dúvida, o mais célebre dos seus livros, tendo sido traduzido do hebreu para o francês em 1273 por Hagin o Judeu.  Foi feita outra tradução do original hebreu para o catalão por Martim de Osca, de Aragão.  Lê-se no seu início:  “O princípio da sabedoria é o temor a Deus, pois é ele a instrução.  Pois quando um homem não segue os seus olhos e o seu coração para satisfazer o seu desejo mundano, então a sabedoria habitá-lo-á.  Além disso, o temor a Deus protegê-lo-á das leis e dos decretos dos céus todos os dias da sua vida e, quando a sua alma se separar do seu corpo, o temor a Deus dar-lhe-á a eternidade e ele viverá para sempre.”

 

2 – SE’FER HÁ’TE’AMIM  (O Livro das Razões) – Comentário e material adicional relativo aos tópicos do Princípio da Sabedoria, dirigidos àqueles que já dominam essa matéria.

 

3 – SE’FER HÁ’MOLADOT  (O Livro das Natividades) – Um extenso debate sobre as casas do mapa, o destino do indivíduo dentro do colectivo, a influência relativa das circunstâncias em torno do nativo versus a sua natureza, a rectificação do mapa pelo Nimodar, a determinação das datas dos acontecimentos pelos regentes das triplicidades, pelas firdárias, pelas idades de Ptolomeu, pelo método das Profecções e pelo Retorno Solar, e a conjugação das Profecções com o Retorno Solar nas observações anuais, mensais e diárias.

 

4 – S’EFER H’AME’OROT (O Livro das Luzes) – Astrologia Médica muito citada por Nicholas Culpeper no seu Julgamento Astrológico das Doenças.

 

5 – SE’FER HÁ’MIV’HARIM   (O Livro das Eleições) – Astrologia Electiva.  Se o nativo alcançará o resultado desejado elegendo uma data propícia para dar início a alguma acção.  A necessidade de considerar a natividade e o que fazer quando não é conhecida.  A identificação da casa que significa o propósito da eleição.  As várias considerações para cada casa e planeta no mapa da eleição.

 

6 – SE’FER HÁ’SHE’ELOT  (O Livro das Perguntas) – Astrologia Horária.

 

7 – SE’FER HÁ’OLAM  (O Livro do Mundo) – Astrologia Mundana.  As fórmulas matemáticas para o cálculo do máximo número possível de conjunções planetárias.  As conjunções Júpiter-Saturno.  Debate sobre a precisão dos cálculos do signo ascendente no momento da conjunção Júpiter Saturno e a hora da revolução solar anual.  O uso alternativo da hora da Lua Nova ou Cheia antes do ingresso em Carneiro.  Os períodos firdários dos astrólogos persas.  Menção do texto cabalístico “Sefer Yetsira”.  O signo regente de um país e a conjunção Marte-Saturno de Mashallah.  Sobre a interpretação dos eclipses de Ptolomeu, as fases e mansões lunares, etc.

 

8 – HE’ZIONOT RABBI AVRAHAM IBN EZRA SHE’HAZA AL SH’NAT 4914 LA’YE’TSIRA  (Previsões Feitas para o Ano de 1154) – Astrologia Mundana baseada na grande conjunção de Júpiter-Saturno em Capricórnio no ano de 1166 que se avizinhava.

 

9 – MISHPATEI HÁ’NOLAD  (Análise do Horóscopo de um Recém-nascido) – Tratado sobre como ler um horóscopo, determinação do Hyleg, a regra sobre não se ler o horóscopo antes do nativo ter 4 anos de vida, a direcção do Hyleg para as datas críticas, o sucesso geral e a qualidade mental, além de observações sobre os progenitores.

 

10 – KLI HÁ’NE’HOSHET  (O Tratado do Astrolábio) – Tratado de astronomia essencial para o cálculo dos mapas astrológicos.

 

11 – TA’AMEI LU’HOT AL-KHWARIZMI  (Explicações para as Tabelas Astronómicas de Muhammad al-Khwarizmi) – Tradução do árabe para o hebreu, contendo uma introdução dos cálculos astronómicos hindus, uma comparação dos cálculos do Almageste de Ptolomeu, uma discussão sobre o erro de precessão encontrado nos textos antigos na determinação da posição das estrelas fixas e constelações, etc.

 

12 – Um Livro por Mashallah sobre os Eclipses do Sol e da Lua – Tradução do árabe para o hebreu.

 

Há relatos de que Ibn Ezra tenha escrito um livro autobiográfico chamado Kohot Shnot há-Adam, no qual descreve a sua vida do nascimento à morte e lista os livros que escreveu.

 

Na obra notável que agora se apresenta, salientam-se os 120 aforismos fundamentais no julgamento de qualquer pergunta horária, assim como a descrição detalhada daquilo que é significado pelos regentes das triplicidades nas natividades, das regências das novenárias e duodenárias, para não falar do importante capítulo dedicado às Partes Arábicas.

 

 “O PRIMEIRO PRINCÍPIO DA SABEDORIA

É O TEMOR A DEUS.”

 ABRAHAM BEN EZRA.

 

LIVRO DOS JULGAMENTOS DAS ESTRELAS

DE

ABRAHAM BEN EZRA

 

LIVRO INTRODUTÓRIO

 

ISBN:  972-8861-18-4

DEPÓSITO LEGAL:  232514/05

 

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Last modified: 04/04/05