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MATHESEOS LIBRI VIII

 

JULIUS FIRMICUS MATERNUS

 

VIDA E OBRA

 

Julius Firmicus Maternus, siciliano de Siracusa do sec. IV, praticou a advocacia durante muitos anos, tendo dela desistido para se dedicar ao estudo.  É apelidado de Senador, Vir Clarissimus ou Vir Consularis e, apesar de não haver evidência de ter pertencido a uma família senatorial antiga, existe a possibilidade de ter sido um dos muitos senadores criados pelo Imperador Constantino para a nova capital em Constantinopla, visto abrir o Mathesis com uma “Carta a Mavortius” em que menciona uma longa e difícil viagem de regresso a Itália.  Lollianus Mavortius, um alto oficial do governo e seu patrono, com o qual mantinha relações amistosas, é mencionado duas vezes pelo historiador Ammianus Marcellinus (330-395), estando as suas promoções registadas numa série de inscrições.

 

Firmicus é conhecido como o autor de duas obras:  a primeira, Matheseos Libri VIII (Oito Livros de Mathesis, ou Teoria de Astrologia) que se sabe ter sido iniciada no ano 334, pois o eclipse do Sol de 17 de Julho desse ano é mencionado no primeiro livro, perfila-se como a mais completa e decisiva obra de astrologia do mundo clássico.  A outra, De Errore Profanarum Religiorum, é escrita cerca de dez anos depois e, apesar de se saber que se terá convertido ao cristianismo no período que separa a escrita das duas obras, esta última não contém qualquer doutrina cristã formal, apresentando-se apenas como um ataque acérrimo contra as religiões de mistério, já condenadas no Mathesis, obra ainda fortemente imbuída de uma postura filosófica pagã.  Nela, Firmicus defende que a astrologia é uma forma pura e superior de filosofia, baseando-se no conceito estóico da sympatheia, segundo o qual existe uma relação íntima entre todas as partes do universo, incluindo as estrelas e a humanidade.

 

Como homem de letras de classe superior com interesse pela filosofia e pela ciência, Firmicus seria fluente em grego, verificando-se que o Mathesis é quase totalmente derivado de fontes gregas e composto por retalhos da ciência helénica e da ciência das estrelas atribuída à lendária sabedoria do antigo oriente.  Percursor da tendência de muitos autores dos secs. IV e V, Firmicus diz que tenciona pôr em latim “para os nossos Romanos” a sabedoria dos antigos. Desde Ptolomeu no sec. II que a astrologia estava ligada à doutrina científica mais respeitável e o determinismo fazia parte integrante da visão estóica do mundo.  Na questão filosófica erudita que, desde a época helénica, se desenvolvia sobre até que ponto a pessoa se deveria render ao determinismo estóico, Firmicus defende a posição extrema, atacando ferozmente os opositores da sua teoria e desdenhando a opinião de alguns filósofos de que o destino pudesse controlar algumas partes da vida humana mas não outras.  A sua ideologia é uma mistura de neo-platonismo e de estoicismo, com um elevado tom moral evidente na “Vida e Instrução de um Astrólogo” no final do Livro Dois, tão apropriada a um prelado cristão como a um filósofo neo-platónico, pois este é um século ascético entre pagãos e cristãos.

 

Bebendo profundamente de fontes helénicas, egípcias e sírias, o Mathesis constitui um documento histórico extraordinário, pois retrata os pensamentos, estilos de vida, ambições e ocupações dos povos que proliferam no mediterrâneo oriental entre a época de Alexandre e Constantino, mostrando-nos a variedade de problemas, doenças, sucessos e insucessos das gentes que a história negligencia.

 

Firmicus não mostra qualquer interesse na vida após a morte, nem qualquer desejo de salvação miraculosa, mantendo-se friamente científico na sua adesão ao determinismo fatal e hostil às religiões de mistério que, tal como o cristianismo, ofereciam a libertação do destino através de milagres.  Para Firmicus, a astrologia é não só tranquilizante na sua revelação da lei natural imutável, tal como o é a doutrina estóica da familiaridade entre todos os aspectos do universo, mas também inebriante, visto proporcionar uma forma de entrever os segredos cósmicos;  mas, segundo ele, só se forem seguidas todas as regras com rigidez matemática.

 

Com o agudizar das penalidades contra todas as práticas não cristãs sob Constantino e, mais tarde, sob o Código de Teodósio (438 d.C.) em que se ordenava que os astrólogos queimassem os seus livros, o Mathesis tornou-se na última obra sobre astrologia do mundo antigo e, apesar da desaprovação oficial a que foi sujeita pela Igreja, foi silenciosamente copiada e preservada nos mosteiros medievais, reaparecendo como um dos primeiros livros impressos.

 

Uma nota no catálogo da Biblioteca de Regensburg do sec. X refere-se a um Mathesis que pode ser o de Firmicus.  É mencionado nas Bibliotecas de St. Maure des Fosses e Bamberg, por volta de 1200, assim como na Philosophia Mundi de Honorius de Autun, no sec. XII.  William de Malmsbury, o historiador do sec. XII relata que Gerbert, mais tarde conhecido como o Papa Silvestre II (999-1003), estudou “o astrolábio de Ptolomeu e de Firmicus sobre o Destino” quando esteve em Espanha, entre os sarracenos.  O mesmo autor refere também que Girard, Arcebispo de York, tinha pecado ao ler Firmicus, sustentando-se posteriormente o facto de que o Mathesis tinha sido encontrado debaixo da almofada no momento da sua morte, razão porque lhe tinha sido negado um enterro cristão.

 

Os manuscritos mais antigos do Mathesis são do sec. XI e contêm apenas os Livros I a III e parte do IV.  O final do Livro IV e os Livros V a VII só se encontram nos manuscritos dos secs. XV e XVI.  Existiam numerosas cópias em circulação na Idade Média comprovativas da sua popularidade e a primeira edição impressa apareceu em Veneza em 1497, acendendo o entusiasmo astrológico da renascença e acabando por chegar até nós numa era que se volta de novo para a segurança e inebriação das filosofias que prometem uma compreensão do lugar do homem no universo.

 

ISBN 972-8861-01-X  DEPÓSITO LEGAL Nº 206920/04

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Last modified: 04/04/05