Garde le Silence                                                              Le Silence te gardera

 

 

                                                                                                                                     

O PROFÉTICO MERLIN

 

WILLIAM LILLY

 

Os primeiros almanaques escritos de que se tem notícia datam do sec. II da nossa era, sabendo-se que os gregos de Alexandria já os criavam por volta da época de Ptolomeu (100-150 AD) graças à evidência deixada por Theon, o comentador de Ptolomeu, num manuscrito encontrado em Paris, em que explica o método de os organizar e regista os materiais necessários para tal.  Os almanaques mais antigos de que há menção são os de Solomon Jarchus, datados de 1150, sendo um outro publicado por Petrus Dacia em 1300, no qual a influência dos planetas é assim registada:

“Jupiter atque Venus boni, Saturnusque maligns ;

Sol et Mercurius cum Luna sunt mediocres.”

 

Durante a idade média, Oxford destaca-se como a sede por excelência da ciência, na qual se incluíam a astrologia e a alquimia, e de lá emanavam os almanaques da época, como o de John Somers, 1380 e Nicholas of Lynna, 1386.

 

O Kalendarium Novum de Regiomontanus, publicado na Hungria e calculado para os anos de 1475, 1494 e 1513 foi o primeiro a ser impresso na Europa.  Apesar de conter apenas os eclipses e as posições dos planetas, foi vendido a dez coroas de ouro e rapidamente se esgotou.  Em Inglaterra só passaram a ser de uso comum a partir de meados do sec. XVI, sendo para tal utilizados os conhecimentos de hábeis matemáticos a que os astrólogos adicionavam as influências planetárias sobre a meteorologia e outros assuntos mundanos.  Em França, um decreto de Henrique III datado de 1579 proibia-os de profetizar, directa ou indirectamente, a respeito dos assuntos do estado ou dos indivíduos.  Em Inglaterra, pelo contrário, James I permitia a continuação das profecias, concedendo o monopólio da publicação dos almanaques às duas Universidades e à Companhia dos Livreiros, o que deu aso ao florescimento da astrologia, cujos praticantes criaram uma companhia que promovia um jantar anual a que Ashmole diz no seu diário ter estado presente durante vários anos seguidos. 

 

As guerras civis de Charles I contra o Parlamento constituíram o período em que os almanaques foram mais avidamente consumidos, destacando-se O Profético Merlin de William Lilly, publicado por Booker após o seguinte incidente, descrito pelo próprio Lilly na sua autobiografia:

 

“Em 1644, publiquei Merlinus Anglicus Junior, por volta de Abril.  Um dia, dei uma cópia a Mr. Whitelock que, por acaso, o estava a ler na Câmara dos Comuns antes do Presidente tomar assento.  Houve alguém que lhe deu uma vista de olhos, e muitos outros fizeram-no também, e compraram cópias dele, o que, tendo chegado aos meus ouvidos, fez com que me dirigisse a John Booker para obter a devida autorização, pois era ele quem atribuía as licenças de todos os livros matemáticos.  Tanto quanto me lembrava, nunca o tinha visto antes.  Ele surpreendeu-se com o livro, fez muitas obliterações impertinentes, apresentou muitas objecções, jurou que não era possível distinguir entre Rei e Parlamento e, por fim, deu a autorização conforme lhe apeteceu.

 

Entreguei-o ao impressor que, sendo um arqui-presbitariano, fez com que fosse inspeccionado por cinco membros do Ministério que não entenderam nada mas disseram que podia ser publicado, pois nele não interferia com a sua divindade.  A primeira edição foi vendida em menos de uma semana.  Quando o apresentei a alguns Membros do Parlamento, queixei-me de John Booker por ter mutilado o meu livro.  Ordenaram-me imediatamente que o voltasse a imprimir como queria e que lhes dissesse se alguém se atrevesse a criar resistência na reimpressão, ou nas adições que eu considerasse apropriadas.  De modo que à segunda vez, saiu como eu queria.”

 

A forma como Lilly travou conhecimento com Sir Bulstrode Whitelock é por ele relatada da seguinte forma:

 

“Em 1643 tornei-me familiarmente conhecido de Sir Bulstrode Whitelock, um membro da Câmara dos Comuns.  Estando ele doente, a sua urina foi-me trazida pela Senhora Lisle, mulher de John Lisle, que mais tarde veio a ser um dos Guarda-Selos de El-Rei.

 

Tendo levantado a minha figura, devolvi a resposta – o doente restabelecer-se-ia desta vez mas, graças a um excesso, teria uma perigosa recaída dentro de um mês, coisa que ele provocou por comer trutas na casa de Mr. Sand, perto de Leatherhead, no Surrey.  Nessa altura, fui visitá-lo todos os dias enquanto o Dr. Prideau já não tinha esperanças de que vivesse, mas eu disse que não havia perigo de tal, e que estaria suficientemente bem dentro de cinco ou seis semanas, e assim aconteceu.”

 

Graças à sua amizade com Whitelock, Lilly tornou-se conhecido de muitos dos principais membros do Parlamento.  Alguns, pertencentes à facção Independente pediam-lhe conselhos astrológicos;  outros, da facção Presbiteriana faziam os possíveis por o perseguir.  Dez anos após o seu primeiro encontro com Whitelock, o seu estatuto era tal que Thomas Claypole, genro do próprio Oliver Cromwell, o consultava, como regista na sua autobiografia, e a gratidão de Lilly para com Whitelock teve oportunidade de se manifestar:

 

“Em 1653, antes da Dissolução (do Parlamento por Cromwell) e antes de terem escolhido alguém como Embaixador junto da Suécia, Mr. Claypole veio ter comigo, perguntando-me quem é que eu achava capaz de ser enviado para nessa Embaixada à Suécia.  Eu nomeei Sir Bulstrode Whitelocke, que foi escolhido, e dois ou três dias mais tarde, Mr. Claypole voltou novamente:  Espero, Mr. Lilly, que agora o meu pai o tenha feito feliz;  o seu amigo Sir Bulstrode Whitelocke deverá ir para a Suécia.

 

A imagem acima representa a execução de Charles I, levada a cabo sobre um cadafalso levantado em frente a Banqueting House, Whitehall.  Em baixo, o povo chorava e rezava por ele.  A cena foi registada no momento do acontecimento, tendo a gravura sido produzida e publicada na Holanda.  Dela se fez o seguinte relato:

 

“O cadafalso, como é bem sabido, estava adornado nesse dia por dois carrascos com máscaras;  e quanto àquele que usou o machado, uma pergunta foi levantada, quem era ele?  O público parece ter sido mantido na ignorância nesta altura dos acontecimentos;  se tivesse sido de outro modo, ele não teria escapado durante muito tempo às adagas dos monárquicos.  Imediatamente após a Restauração, o governo fez um esforço para descobrir quem era o verdugo mascarado;  mas não se sabe se alguma vez o conseguiram.  William Lilly, o famoso astrólogo, tendo deixado cair a insinuação de que sabia alguma coisa sobre o assunto, foi examinado perante uma comissão parlamentar nessa altura, e deu a seguinte informação:

 

No domingo após ao que se seguiu depois de Charles I ser decapitado, Robert Spavin, Secretário do Tenente General Cromwell, fez-se convidado para jantar comigo e trouxe Anthony Peirson e vários outros com ele para o jantar.  O seu principal discurso durante o decurso do jantar foi unicamente sobre quem tinha decapitado o Rei.  Um dizia que tinha sido um carrasco comum;  outro, que tinha sido Hugh Peters;  foram nomeados outros, mas nenhum foi conclusivo.  Assim que o jantar terminou, Robert Spavin levou-me para a janela virada ao Sul.  Diz ele, “Estes estão todos enganados;  não disseram o nome do homem que fez o acto:  foi o Tenente Coronel Joyce.  Eu estava na sala quando ele se vestiu para a função – fiquei atrás dele quando ele a levou a cabo – quando acabou, voltei a entrar com ele.  Mais ninguém sabe disto além do meu senhor (viz. Cromwell), o Comissário Ireton e eu.”  “Mr. Rushworth também não o sabe?” disse eu.  “Não, ele não sabe,” diz Spavin.  A mesma coisa me foi frequentemente relatada por Spavin desde então, quando estávamos sozinhos.  Mr. Prynne fez, com muita cortesia, um relato sobre isto na Câmara.”

 

Conta-se uma história a respeito de uma tal Miss Russell, bisneta de Oliver Cromwell, que era dama de companhia da Princesa Amelia, filha de George II;  estando ocupada nas suas funções num dos aniversários da decapitação, o Príncipe de Gales entrou na sala e interpelou-a:

 

“Que vergonha, Miss Russell!  Por que razão não está na igreja, prostrada em prantos e lamentos pelos pecados cometidos neste dia pelos nossos antepassados?

 

Ao que Miss Russell respondeu:

 

“Senhor, para uma descendente do grande Oliver Cromwell, é humilhação suficiente ter a função de pegar na cauda da vossa irmã!” – Rede’s Anecdotes, 1799.

 


Entre os almanaques mais conhecidos mundialmente, encontra-se o que Benjamin Franklin publicou em 1733, na cidade de Filadélfia, sob o nome fictício de Richard Saunders.  Ficou conhecido como Poor Richard’s Almanac e a sua edição foi mantida por Franklin durante cerca de vinte e cinco anos.

Esta obra é apresentada no mesmo volume dos Elementos da Arte da Astrologia de Al-Biruni.

 

 

  ISBN 972-8861-07-9

DEPÓSITO LEGAL Nº 220615/04

 

 

 

 

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Last modified: 03/29/05