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Tetrabiblos
de
Claudius Ptolomeus
VIDA E OBRA
“Eu sei que sou mortal e a criatura de um só dia; mas, quando perscruto o conjunto dos círculos giratórios das estrelas, os meus pés deixam de tocar na terra e, lado a lado com o próprio Zeus, sacio-me de ambrosia, o alimento dos deuses.”
“O divino Ptolomeu” como é apelidado por Hephaestion de Tebas, terá nascido entre o ano 85 e 100, e morrido entre 165 e 178 em Alexandria. O local do seu nascimento tem sido atribuído a Tolemada Herméia, segundo Theodore de Melitê a Ptolomaïs e, segundo a obra do sec. XI de Abulwafa, a Pelusium. O mesmo autor refere que viveu até aos 78 anos. O próprio Ptolomeu nos diz que as suas observações astronómicas foram feitas a partir do paralelo de Alexandria, o que nos leva a crer que esse tenha sido o seu local de residência, apesar de Olympiodorus, no sec. IV, preservar a tradição de que durante 40 anos as suas observações terão sido feitas a partir de Canopus, a 20 quilómetros de distância, e em cujo templo erigiu uma estela votiva. A sua primeira observação registada no Almagest foi feita em 127 e a última em 151, o que nos leva a concluir que a sua vida terá decorrido aproximadamente entre 100-178, durante os reinados de Trajano, Adriano, Antonius Pius e Marcus Aurelius.
Mas, se por um lado a sua obra contém pouca informação biográfica, por outro transformou o seu nome na referência suprema em astronomia, geografia e astrologia, desde a sua época até à Renascença. Por ela sabemos que filosoficamente, adoptou uma posição Aristoteliana, evidenciando conhecer a obra dos seus predecessores, de Menelaus nas matemáticas, de Hiparchus na astronomia, de Marinus de Tiro na geografia, de Didymus na música e de Posidonius na etnologia astrológica e nos argumentos pelos quais a astrologia era defendida. Bebeu livre e abertamente de todos eles, sistematizando a matéria com que lidava, uma característica particularmente evidente no Tetrabiblos.
São-lhe atribuídas, com ou sem razão, 14 obras: - O Almagest ou Syntaxis Mathematica, em 13 livros, o grande tratado sobre astronomia. - Sobre as Aparições das Estrelas Fixas e uma Colectânea de Prognósticos. - Sobre a Hipótese Planetária. - Tábua de Reinados, uma tábua cronológica dos reinados. - Sobre a Música, em três livros. - O Tetrabiblos ou Quadripartitum. - De Analemmate, a descrição de uma esfera sobre um plano. - O Planisphaerium. - O tratado sobre Óptica, em 5 livros e de cuja autenticidade se tem duvidado. - O Centiloquium, uma colectânea de aforismos astrológicos. - A Geografia. - As Tábuas Astronómicas Instantâneas. - O Esquema e Manipulação das Tábuas Instantâneas. - Um pequeno tratado sobre a teoria do conhecimento e a alma.
O Tetrabiblos ou Quadripartitum, também chamado, em alguns manuscritos “Tratado Matemático em Quatro Livros” e noutros “Prognósticos endereçados a Ciro” considerado por alguns como um nome fictício e por outros como um médico perito em astrologia, é um tratado sistemático em astrologia, palavra que, para Ptolomeu, significava “prognóstico através da astronomia.” A dúvida que surgiu mais tarde sobre a autenticidade desta obra, baseada na dificuldade de certos estudiosos em aliar a astronomia à astrologia, não teria qualquer fundamento no sec. II, época em que o triunfo da astrologia era total. Quase todos acreditavam nela, do imperador ao mais humilde escravo e, após sobreviver à crítica da Nova Academia, foi defendida pela poderosa Doutrina Estóica. A sua posição foi fortalecida pela prevalência das religiões estelares e solares por todo o mundo, e acabou por captar as ciências como a medicina, a botânica, a mineralogia, a química e a etnografia. Esta situação prolongou-se pela Renascença fora. Regiomontanus, Copernicus, Tycho Brahe, Galileo, Kepler e Leibnitz praticavam a astrologia ou apoiavam a sua prática. Portanto, o facto de um cientista como Ptolomeu ter acreditado na astrologia ou escrito sobre ela não teria constituído uma incongruência, além de que, nas suas opiniões filosóficas, na sua linguagem e na sua astronomia, a obra está em total concordância com as obras Ptolomaicas cuja autenticidade nunca foi questionada.
Apesar do Tetrabiblos gozar da autoridade de uma Bíblia entre os autores astrológicos durante mais de mil anos, o seu texto grego só foi impresso três vezes, e não o voltou a ser desde o sec. XVI até à edição de 1940. - A primeira edição, da autoria de Joachim Camerarius, foi impressa por Froben em Nuremberga em 1535 em quarto. Além do texto grego, contém a tradução latina de Camerarius dos Livros I-II e de partes dos Livros III-IV, assim como as suas notas sobre os Livros I-II. - A segunda edição, também por Camerarius, em que este diz ter corrigido muitos erros do texto e em que utiliza um ou mais manuscritos adicionais, foi impressa por Joannes Oporinus em octavo em Basileia em 1553. Esta contém o texto grego e uma tradução latina de Melanchthon. - Fr. Junctinus incluiu o texto grego do Tetrabiblos no seu Speculum Astrologiae, cuja segunda edição, em dois volumes in folio, surgiu em Leyden em 1581.
A tradução do Tetrabiblos mais antiga é a versão árabe do sec. IX, da autoria de Ishaq ben Hunein, a partir da qual as traduções latinas de Plato Tiburtinus, em 1138 e de Aegidius de Thebaldis em meados do sec. XIII, cujas primeiras edições impressas surgem em 1484, se tornaram no principal veículo pelo qual o Tetrabiblos se tornou conhecido na Europa Ocidental, até à primeira edição do texto grego. Após a primeira tradução latina a partir do grego, da autoria de Camerarius, surge a de Antonius Gogava, editado pela primeira vez em Louvain em 1543, que é a versão utilizada por Hyeronimus Cardanus no seu elaborado comentário, publicado no sec. XVI. Depois da tradução de Melanchthon em 1553 que, como foi dito, é uma das três que apresenta o texto grego, surge uma tradução inglesa por John Whalley, publicada em 1701 e, novamente, em 1786, apresentando todos os erros e obscuridades que desgraçavam a anterior. Ptolomeu não é fácil de traduzir com precisão e, apesar da versão de Whalley ser pior do que as outras, todas elas mostram uma certa tendência para encobrirem as dificuldades com frases polidas e reservadas.
A importância e a popularidade do Tetrabiblos é evidenciada pelo número considerável de comentários que podemos deduzir terem existido na antiguidade; além do de Pancharios, cuja obra se perdeu, à excepção de algumas citações, sobreviveram três tratados, editados por Hieronymus Wolf e publicados com traduções latinas in folio em Basileia em 1559. São eles: - Um comentário anónimo atribuído por alguns a Proclus. - Uma introdução, que se atribui a Porfírio, apesar de não haver a certeza deste ser o seu autor. - Os escólios de Demophilus, que não voltaram a ser publicados mas que podem ser encontrados em vários manuscritos.
Mas a Paráfrase, atribuída a Proclus, cujo manuscrito do sec. X é mais antigo do que qualquer dos do Tetrabiblos, e cuja primeira edição surgiu em Basileia em 1554 com um prefácio de Melanchthon, é o documento que mais importância tem para o estudo desta obra, além do já mencionado comentário de Hieronymus Cardanus.
Ptolomeu era um autor difícil até para os antigos; a existência da Paráfrase e os frequentes deslizamentos do comentador anónimo atestam-no. Demonstra uma predilecção pelas frases longas e complicadas e apresenta vários maneirismos, entre eles uma tendência para o modo infinito com o artigo e um quase teutónico hábito de acumular longas sequências de modificadores entre o artigo e o substantivo, o que resulta frequentemente em sequências de dois ou até três artigos. Nesta obra, Ptolomeu revela um certo entusiasmo pelo assunto, mas seria impossível elogiar o seu estilo literário e a transparência da sua exposição, o que faz com que seja muito difícil dar ao seu texto uma clareza cristalina.
O final dos manuscritos do Tetrabiblos tem constituído um problema para todos os estudiosos. Num grupo a conclusão é totalmente inexistente e, ou foi deixada assim ou deu-se-lhe uma terminação que é idêntica à Paráfrase de Proclus, e que é certamente espúria; noutro, surge um final consideravelmente mais longo do que o anterior, mas cujo significado é precisamente o mesmo, e que se encontra igualmente na versão árabe. Se este final também não for genuíno, conclui-se que o final original do livro ter-se-á perdido tão prematuramente que estará ausente em todos os manuscritos, situação que não era invulgar em tempos idos, especialmente quando o primeiro livro existia em forma de codex. É provável que o final dado nesta edição tenha sido escrito por Ptolomeu mas, como a questão se mantém indecifrável, são apresentados ambos.
ISBN 972-8861-03-6 DEPÓSITO LEGAL Nº 206919/04 Todas as informações suplementares devem ser pedidas a
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